Cem, sempre Cem formas de investigar as Folhas

Depois da exploração da cesta de outono oferecida pela família da C., o grupo continua muito focado na investigação das folhas. 
E porque a criança é feita de cem linguagens dei por mim a pensar em novas propostas, novos materiais, novas formas de organizar o espaço e surge a ideia de criar uma instalação imersiva.

«A visão e a organização do ambiente contempla uma preocupação com o desenvolvimento global da criança. Os espaços sugerem uma organização  que favoreça a interação entre pares, materiais e espaços, da forma mais autónoma que lhes é possível.(…) Todo este processo visa a estética, a segurança e a qualidade da investigação» J. Souza – Diálogos e reflexões sobre a abordagem Reggio na 1ªinfância-
 Era preciso reunir materiais que pudessem transformar a nossa sala num jardim sensorial. Mas teria de ser algo dinâmico, com movimento, ritmo, que convidasse os sentidos à investigação, ao onde a criança fosse o protagonista da ação.
Criar um ambiente que fosse uma experiência imersiva, usando todo o espaço da sala, sem esquecer as paredes, o espelho, os elementos naturais que já havíamos reunido...
Não era tarefa fácil, mas era possível!
Era preciso vestir a pele de educador investigador e ir à procura de elementos provocatórios.

A proposta era simples. Projetar no papel diversos cenários onde as folhas fossem as protagonistas.
Folhas que se transformam por ação do tempo, do sol, do vento, imagens reais, com movimento e relação entre si.
Teriam de ser folhas que respondam ao foco de interesse do grupo, teriam de ser Folhas que mudam de cor.
Procurei imagens com movimento onde a conexão entre a imagem e o som instrumental nos transportariam para uma viagem imersiva pelos lindos parques naturais da Europa.
Como recursos usei o PC, o projetor e numa das paredes colei papel de cenário.

    Numa mesa de apoio, as crianças tinham disponíveis riscadores de várias cores e o convite ao seu uso era bastante claro: Colorir as folhas projetadas no papel.
         Além disso cada criança transformava-se em tela  viva de projeção, dando dupla oportunidade, aos que desejavam ver a projeção e aos que desejavam rabiscar as imagens que observavam. Cada criança decidia onde e como iria usar aquela dinâmica


Do outro lado da sala o jardim ganhava vida, forma e cor… a imagem transformava-se em realidade e surgia um novo convite frente ao espelho.
 

 O espelho servia agora com dupla função, ele reflete e acolhe a investigação e expressão das crianças, pois colei nele um pedaço de papel autocolante, com a parte adesiva para fora.
Em cima do tapete de relva, as folhas que havíamos recolhido na rua, um cesto e algumas caixas com cascalho, ramos, frutos de casca dura e claro, tempo e  liberdade para os investigar.

Naquela manhã transformámos a sala num enorme jardim sensorial, onde as folhas foram o centro da ação.
Uma provocação de cem linguagens sensoriais, artísticas, de investigação e construção do pensamento.
Um ambiente que convida o corpo todo a investigar, agir, transformar, conhecer.
O tempo das crianças parou o relógio da sala e foi difícil terminar a sessão.
No entanto, cada um ao seu tempo foi ocupando um lugar frente ao grande ecran improvisado e ali ficaram entre as camas que iam ocupando o seu lugar na sala.
Lentamente aquela experiência deu lugar ao convite para ir almoçar, e assim, terminava a nossa provocação imersiva entre as folhas, as sombras e as luzes.
O educador deve ter confiança nas crianças como sujeitos curiosos por natureza.Deve assumir a coragem de a acompanhar nesta aventura do Investigar pelo BRINCAR. Rinaldi- Diálogos com Reggio Emilia-
Senti nos dias seguintes que era preciso continuar a construir andaimes para apoiar esta investigação tão maravilhosa das folhas.
Nunca senti, até à data, necessidade de dar um nome a esta investigação, um nome daqueles relacionado com o outono. Não creio ser necessário dar-lhe outro nome que não Folhas, afinal o foco são as folhas e não a estação do ano, que nesta faixa etária (20-24 meses) pouco importa referir.

Senti que mais importante que dar nomes pomposos a esta investigação, era necessário estimular os sentidos do grupo e apostar nos aromas das folhas.

As folhas têm um cheiro maravilhoso, mas ainda assim adicionei alguns ramos de rosmaninho, alecrim, folhas de eucalipto e coloquei tudo em cima da mesa do atelier. Ao lado algumas taças, travessas. cestas e nelas misturei as sementes de árvore e os frutos de casca dura.

Fico por ali a observar o que irá acontecer.
Sei que as criança se mostram curiosas, pesquisadoras, envolvem-se em desafios e juntos encontram soluções para os seus pequenos problemas e desafios, aquele momento tinha tudo para servir de andaime!


Brincam e exploram os seus movimentos corporais, procuram testar as suas noções espaciais, exploram os movimentos de maior destreza, treinam a concentração.

 
Rapidamente observo uma das crianças a explorar as capacidades de medida das taças e transporta as folhas de taça para taça repetidamente.


Algumas crianças adicionam outros objetos à proposta. Trazem as louças e procuram separar os materiais disponíveis, seleccionam apenas as sementes e frutos de casca dura.
Demonstram saber efectuar escolhas e sentem essa liberdade. Nenhum dos adultos faz comentários, mas ambas vamos acompanhando sob um olhar de escuta atenta.
 

A criança usa as suas experiências pessoais, familiares e culturais para testar o que já sabe e procurar ampliar esse conhecimento.
Assim as suas narrativas imaginárias assentam frequentemente na relação entre o cuidar e os papeis sociais e familiares.
A associação aconteceu entre o conceito Folha/semente e a sua transformação /utilidade como comida.

E ali naquele momento nascia um enredo de jogo simbólico onde os papeis sociais, familiares e  culturais  servem de rampa às suas vivências.
 Cada vez mais as palavras de Malaguzzi me fazem sentido quanto à existência das cem linguagens da criança.



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