“O quotidiano da educação de infância, por infâncias vivas e vividas ... Olhares de uma educação do Brasil e de Portugal”

 

Durante este tempo de pandemia fui encontrando parceiros fantásticos além mar. O João Silva foi um desses presentes que se tornou presença companheira da reflexão sobre a educação de infância.
Num momento frágil que o seu país atravessa lançou-me o desafio de escrever a duas mãos um artigo sobre o quotidiano e o tempo da infância.
hoje partilho convosco o resultado desse trabalho.
boas leituras!

“O cotidiano da educação infantil, por infâncias vivas e vividas ... Olhares de uma educação do Brasil e de Portugal”
João Luiz Silva da Rosa¹ 
Milena Branco²

“O adulto deve olhar para a infância como se olha para a lua, não para o dedo indicador que aponta para ela. Até agora, o sistema educacional para no dedo e o dedo, às vezes, nem aponta” (ESLAVA, 2020, p. 1999).

Costumo dizer que a docência se faz no coletivo, entre pares que estão conectados em uma imersão da mudança, da revolução de uma educação de qualidade, que prioriza a criança em sua inteireza. Estamos passando por um momento inédito, de mudanças e adaptações em nosso trabalho, vivendo na esperança de boas notícias e o retorno ao chão da escola.
A quarentena me proporcionou entrelaçamentos com diversos educadores, estudos e reflexões acerca da mudança, olhar para dentro de si pensando em possibilidades e construções. Entre essas partilhas, encontrei pela estrada da docência Milena Branco, uma educadora de Portugal, que costura cada fio de nossas infâncias, trabalhando por uma pedagogia das relações, visando a criança como protagonista de uma escola de excelência. 
Em parceria com Milena, resolvemos escrever esse artigo pensando nas crianças e o cotidiano da educação infantil, lendo os gestos e especificidades de cada um, valorizando a capacidade infantil de se encantar com as miudezas que espaço proporciona. Convidamos você leitor para refletir sobre esse tema, rompendo com a visão de escola pensada na aceleração do cotidiano.
Escola, espaço das relações, afetos, caminho de encontro com o outro, lugar para viver o inesperado e encantar-se com detalhes. O cotidiano é um convite para desbravar o universo infantil, quando o educador observa o entorno e sua mão descreve o acontecimento, os tempos infantis tornam-se valorizados pela reflexão do educador diante das crianças.
O cotidiano não pode ser visto como algo isolado, sem a escuta e a participação das crianças. O espaço reflete a cultura de cada grupo que constitui o espaço, das bagagens que as crianças trazem e da participação do educador, construindo coletivamente com a instituição, pensar na ouvidoria dos pequenos e nos planos que podemos alçar juntos.
Todos os dias acontecem diversas situações, algumas são corriqueiras, outras são novidades, mas precisamos pensar e planejar um cotidiano, entendendo os tempos e as necessidades. Pensar no cotidiano é tornar momentos prazerosos e preciosos, oportunizando as crianças a aproveitarem diversas situações, protagonizando o espaço vivido.  As relações estabelecidas acontecem em um local organizado para e com as crianças.
O cotidiano é povoado de diversas situações, precisamos pensar em um cotidiano com as mãos das crianças, estabelecendo oportunidades do protagonismo de escolha realmente acontecer na pedagogia da educação infantil. A organização da vida cotidiana requer olhares e mudanças nas estruturas, tranquilizando vozes aceleradas e angustiadas que não oportunizam a escuta das crianças, estando cientes que o cotidiano se torna um espaço das iniciações.
Repensamos sobre a brutalidade da vida cotidiana, à pressa do relógio que prevalece diante de um cotidiano fragmentado e sem as cores das infâncias, da aceleração do encontro e do espaço invadido pela pressa, devastando o encanto e a poética que a vivacidade ocasiona. O gesto abriga o respeito ao tempo, mas não o tempo do relógio que encontramos nas paredes das escolas, mas, sim, o tempo da criança. Um tempo de viver a infância, festejar as novas gerações e aprender que precisamos de pausa para respirar, observar o entorno e aprender com as miudezas.
Salvaremos o cotidiano quando realmente entendermos a tal importância que o tempo tem, quando a preocupação maior for o brincar como prioridade absoluta das crianças.
O teu texto ele faz-me lembrar um outro texto, da Penny Ritscher no qual ela traz a imagem das amendoeiras em flor para as comparar com o desenvolvimento das crianças. Ela descreve como é deliciosa essa espera pela flor da amendoeira, da paciência de quem aguarda e da inutilidade de as apressar a florir. E traz ainda essa imagem de que as amendoeiras, elas não florescem todas ao mesmo, tal como as crianças. O desabrochar das crianças, tal como o das amendoeiras, é misterioso, minucioso, pede respeito pela sua natureza própria, pelo seu tempo e delicadeza no trato e no cuidado.
Assim devem ser as escolas, espaços respeitadores, no trato, na delicadeza da espera, no tempo que cada criança precisa para crescer, tanto como na oportunidade que lhes dá para se desenvolver na única forma que a criança sabe…pelo brincar.
Esse brincar, ele deve ser embrulhado de tempo e oportunidades respeitadoras do ritmo da infância.
As crianças precisam desse brincar sério e comprometido, apoiado e sustentado por adultos igualmente sérios e comprometidos, tal como o são os agricultores que cuidam das amendoeiras…
Educadores pesquisadores do saber, do sentir, que apresentam convites, contextos claros, que as crianças possam ler, entender, e investigar sem o comando do adulto, são educadores que abrem pontes a uma investigação séria e autónoma das crianças. Momentos cheios de coisas miúdas, belas, cuidadas, que acolhem e abraçam a curiosidade infantil, tanto como o sol que aquece no frio do inverno, acolhe as tímidas flores da amendoeira.
É preciso escutar, desvendar, ler nas entre linhas, aquilo que nos fala o mestre Malaguzzi, o papel da escola não é o da aprendizagem por si só, mas da capacidade da escola em dar oportunidades para que essa aprendizagem possa acontecer. Assim, o tempo, o respeito, a confiança, o corte importante da poda, que corta o descartável, o desnecessário, aquilo que impede o olhar da criança ir além do visível, são elementares tanto para o agricultor que cuida de forma séria, comprometida, respeitosa, firme e terna as suas amendoeiras, tanto como o é para o educador que acolhe e educa as crianças na sua escola.
Tal como o agricultor lida com intemperes próprias da natureza, o educador soube reinventar-se nas exigências sérias que mudaram o mundo tal como o conhecíamos antes da pandemia…
Num tempo em que tudo se tornou digital, onde tudo se afastou das mãos das crianças, onde a escola e a criança se separam por um écran, voltar a estar juntos traz a oportunidade renovada para acender a sensibilidade, regulando tempos e oportunidades para reatar o que não pode ser vivido, o que não pode ser tocado, o que não pode ser saboreado…
A escola tem, tal como toda a humanidade, nova oportunidade para fazer, sentir e ser diferente, acendendo, alimentando nas crianças o fogo da descoberta, da generosidade própria da sua natureza, respondendo ao desejo da beleza e da importância dessas coisas miúdas que aos olhos da criança se tornam gigantes focos de interesse, cheias de vida e tempos próprios, desses que a criança não tem pressa de observar, para mais tarde poder contemplar.
É urgente proporcionar oportunidade para que as crianças possam voltar a construir conceitos sobre o mundo de forma poética, lenta, segura e afetiva, menos que promover isso na forma de narrativa científica, confusa, com termos que a criança não entende e que nem cabem dentro do tempo da sua infância…
A escola precisa de menos relógios de parede e de mais tempo emocional.
A escola precisa tanto de abrir portas à cultura e à arte, como as amendoeiras precisam do frio do inverno e da ternura do sol que as aquece…
As crianças já nos mostraram que aprendem com CEM sentires embrulhados de emoções e relações, mas a escola insiste em querer responder mais cientificamente que emocionalmente.
O educador comprometido vai transferir o seu encantamento para as crianças, tal como o agricultor transfere proteção no trato nas suas amendoeiras.
Para aqueles que vivem a acusar a escola de se ocupar mais de coisas miúdas, que demoram tempo, são repetitivas, sem resultados imediatos em vez de coisas sérias, visíveis e comprovadas no agora, façamos um simples convite… o de conhecer esse  agricultor que espera de forma respeitosa, cuidadora e paciente, pela flor das suas amendoeiras.
Como um simples agricultor, uma simples amendoeira, nos podem ensinar tanto sobre educar e cuidar da infância.

1. João Luiz Silva da Rosa é pedagogo, especialista em psicopedagogia institucional. Pós graduando em psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem (PUCRS). Assessor pedagógico em escolas de Educação Infantil. Idealizador do grupo de estudos laboratório das infâncias, onde discute temas sobre a primeira infância.
2. Milena Branco é educadora da infância há 17 anos. Apaixonada pela educação, tanto pela natureza e por todas as formas de arte. Investigadora e estudiosa da abordagem Reggio Emilia. Trabalha em uma instituição de solidariedade social com crianças de idade de creche. É gestora do projeto @sitiodaeducacao, onde partilha as vivências e práticas do cotidiano da escola.






REFERÊNCIAS 
Maria Isabel Cabanellas Aguilera; Maria Clara Eslava Cabanellas; Juan José Eslava Cabanellas; Raquel Polonio Rubio. Ritmos infantis: tecidos de uma paisagem interior. São Carlos: Pedro & João Editores, 2020.
Penny Ritscher «Slow school- pedagogia do quotidiano», editora, Giunti Scuola,2015.


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