Balanço Final: A organização do tempo


A organização do espaço como foi pensada, gerida e organizada, tenta promover, na minha opinião, o envolvimento de cada criança na gestão cooperada do currículo na creche. Todo o planeamento, organização e recolha de cada recurso, a criação de cada espaço, tem como base a escuta ativa fundada na observação direta na sala e pelo feedback que os pais nos fazem chegar. Compreendendo cada criança, os seus focos de interesse e necessidades, formas de pensar e agir com os recursos, os espaços e com os outros, tentamos garantir a todos uma resposta. Não senti necessidade nem urgência em pensar antecipadamente nesta organização, decidi esperar, conhecer o grupo e avançar à medida daquilo que observava, escutava, descobria neles e com eles. Procuramos promover a participação e exploração dos recursos disponíveis, mas dentro do tempo de cada um, respeitando o seu ritmo e até o seu direito à não participação, se esse for o sinal dado pela criança.

O tempo é a chave mestra para que a criança possa gerir-se internamente e na relação com os outros. Esta interação pessoal e social não tem de cada um, o mesmo tempo. As propostas disponíveis devem ajudar a criança a resolver os seus bloqueios, a sentir-se segura para exercer as explorações. Cabe ao adulto estar ao seu lado, como um «andaime» que a apoia no desenvolvimento da sua ação. Ao tomar progressivamente consciência de si como individuo, reconhecem-se parte também do seu grupo de pares, vai apoderando como «seus», os espaços e os tempos, participando cada vez mais de forma ativa, no seu planeamento e organização.

São as famílias que primeiro nos ajudam a conhecer a criança e foi com elas que iniciámos a construção dos instrumentos de regulação da vida do grupo. Todos participaram na elaboração e diariamente fazem uso deste mapa. Falo do mapa de presenças, o primeiro instrumento que ajudou a construir a noção do Eu e do Nós dentro da sala. Ao mesmo tempo que se construía a noção de pertença.
Nascia assim também e de forma quase em simultâneo o identificador dos pertences e o mapa de aniversários (Este último foi entendido e vivido apenas mais tarde, com a repetição dos aniversários, cada criança retirava a sua foto do mapa e coloca-a na porta como que avisando que esse é o SEU dia especial.
As famílias dão esse apoio diário, incentivando a criança a identificar-se no mapa, assinalando a sua chegada colocando os seus pertences no SEU cabide e a SUA fotografia no mapa, inicia assim o nosso dia, com o tempo de acolher (9-10h- horário de entrada das crianças).
O tempo na nossa sala é vivido de forma muito ampla e respeitadora das necessidades de cada um. Assim reservamos um tempo para brincar, (paralelamente com os cuidados de higiene, sempre necessários) antes da nossa reunião da manhã, que acontece à hora do lanche (10h).
Neste primeiro tempo, tempo de acolher cada criança pode decidir para onde ir, o que fazer, que recursos usar, enquanto o adulto recebe as crianças que vão chegando e que necessitam da sua atenção. Ao seu ritmo cada um inicia o seu dia.
 A reunião começa com a preparação da fruta e a conversa surge assim, ao redor da comida.
Depois de conversarmos sobre o que vamos fazer e o que fizemos no dia anterior (tempo de planear 10-10;15h), temos o tempo da história que acontece de várias formas e com vários recursos além do livro. Recursos como os fantoches ou o projector são comuns neste tempo (10.15-10.30h).
Partimos depois para o tempo rei da nossa manhã , o descobrir, explorar e brincar! (10;30-11.15H).
 Durante este tempo exploramos as áreas da sala e os seus recursos. Cada criança organiza a sua ação em explorações individuais, em pequeno grupo, em grupos mais alargados ou com a participação do adulto, sem, no entanto, existir uma direção definida pelo adulto.
Ele é apenas mais um companheiro de jornada, com a tarefa de amplificar esse brincar, de apoiar nas descobertas, um «andaime» presente para a eventualidade de ser necessário.

No final da manhã e depois de arrumado o espaço é tempo de ir ao recreio (11;15-11;30h).
Durante este tempo a equipa organiza-se para colocar na sala os catres para a sesta enquanto a 
outra vigia o recreio. Um pouco antes da hora do almoço o grupo faz a sua higiene (lavar mãos e cara) para se dirigirem ao refeitório, pois é tempo de almoçar (11;30-12;15H).

Tendo o tempo de cada criança como prioridade, as nossas rotinas de higiene e alimentação dão continuidade a esse respeito pelo ritmo e necessidades individuais. A ordem dos pratos é servida à medida que as crianças vão terminando o prato anterior. É comum na mesa assistir a crianças a comer a sopa, outras o segundo prato, outras a fruta.
À medida que vão terminando o almoço as crianças vão para a sala com um dos adultos para fazer a sua higiene e dão inicio à sua sesta.
É chegado o tempo de repouso (12;15 ás 15h).
À medida que vão acordando as crianças vão fazendo a sua higiene e a sala volta a ficar «operacional» (15-15;40h). Depois de reorganizar a sala o grupo volta ao refeitório para o lanche da tarde (15;40-16h).
Depois do lanche o grupo volta ao tempo de Explorar, descobrir e brincar (16-17;30), que pode ocorrer na sala ou no recreio. Pelas 17;30 até ás 19h ocorre o tempo de prolongamento até à chegada dos pais. As crianças, que estão agora em menor número vão para a sala de prolongamento onde brincam até a chegada das suas famílias.
O nosso tempo foi sempre gerido e organizado com base nas necessidades e focos de interesse das crianças do nosso grupo, sem receitas, para nós resultou muito bem, no próximo ano logo se vê como será!

No próximo post vamos partilhar convosco a nossa aventura na projeção, reflexão, construção e  vivência da nossa agenda semanal!




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